
Aconteceu no dia do blecaute geral, era mais ou menos 22h e eu estava colocando o pé para fora da faculdade quando todas as luzes começaram a piscar perdendo a força.
Tudo ficou escuro.
Eu estava tentando atravessar a avenida para seguir até o ponto de ônibus, mas, sem energia o semáforo nunca ia ficar vermelho para os carros, que não paravam de passar. De repente ouço uma voz reclamando da falta de luz, sem enxergar nada comentei que parecia ter faltado energia em uma grande parte da cidade, pois não enxergava nenhum ponto de luz mesmo olhando sobre a avenida. Ambos concordamos e continuamos comentando sobre o blecaute.
Pouco tempo depois eu e todas as pessoas que queriam atravessar a avenida conseguimos. Chegando ao ponto de ônibus reparei que não sabia com quem conversara, pois estava totalmente escuro, parei por um instante para identificar quem era, e foi uma imensa surpresa para mim, pois, conhecia muito bem seu rosto, ela estava todos os dias ao meu lado esperando o ônibus no mesmo horário.
É interessante como nunca havia trocado nem sequer um oi e neste dia tivemos uma conversa muito agradável.
Isso me fez lembrar uma cena do livro e filme Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago, em que após todos na cidade ficarem cegos e passarem muitos meses sob esta condição um velho e uma jovem começam a se gostar.
Em um determinado momento da história as pessoas retomam a visão, um por um voltam a enxergar. Ao ouvir os gritos de felicidade das pessoas que diziam estar enxergando novamente o velho é o único que sente uma enorme tristeza, pois sabe que com a volta da visão a sociedade não aceitará o relacionamento de um velho e uma jovem. Sabe que ficará sozinho.
Comparando esta cena do livro e o dia do blecaute, a visão funciona como uma janela com grades. A partir do momento que este sentido se perde os preceitos para iniciar os relacionamentos mudam, os valores mudam, deixa de existir uma barreira e não uma fronteira.
Será que temos que nos orientar sempre pela ilusão dos olhos?











